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O arroz de Palma fala de família. Considerada falida nos anos 60 e condenada ao desaparecimento, a família situa-se, agora, neste início do século XXI, como uma sólida instituição. Surpreendente? Nem tanto. Embora sacudida por radicais transformações de comportamento, ao longo das últimas quatro décadas, a família tem sabido superar suas deficiências, passar por testes dificílimos e, com base em diálogo mais franco, obter um maior entendimento entre seus membros: a aceitação do sexo antes do casamento e da homossexualidade, a união entre pessoas de religiões, raças e níveis sociais diferentes, a possível amizade entre casais que se separam e a natural convivência entre filhos de casamentos diferentes são apenas alguns exemplos de como essa instituição tem sabido evoluir e responder a novos desafios.

Embora ainda com resistências e intolerâncias aqui e ali, e apesar de aparentes sinais de fragilidade, a família apresenta-se hoje como a instituição mais credenciada para reger de forma responsável as mudanças que a sociedade vem exigindo. Em O Arroz de Palma todos esses temas e mudanças estão presentes. Antonio, o narrador da história, é naturalmente envolvido por elas. A história pretende mostrar que, apesar de todos os seus erros e tropeços cotidianos, a família busca se aprimorar. Ao se empenhar pelo acerto, essa milenar instituição parece querer provar que nós, seres humanos, pelo próprio instinto de sobrevivência, estamos fadados ao entendimento.

Marco

Em março de 2026, O arroz de Palma atingiu a marca de 145 mil exemplares vendidos, conforme relatório da Editora Record reproduzido na imagem a seguir: Relatório da Editora Record sobre a tiragem do livro O arroz de Palma

A história

O arroz de Palma acontece em 2008, quando Antonio, o narrador, já está com 88 anos e prepara um grande almoço para comemorar os cem anos do casamento de seus pais. Os irmãos, já octogenários como ele, e todos os seus descendentes comparecem à celebração. O enredo ocorre ao personagem em forma de lembranças isoladas. O arroz que, em clima de realismo fantástico, serve de fio condutor, é bastante simbólico. A trama tem início no dia 11 de julho de 1908, em Viana do Castelo, Norte de Portugal, no casamento de José Custódio e Maria Romana. Terminada a cerimônia, o arroz que desaba sobre os noivos é torrencial, chuva branca que não para. O cortejo segue em festa pelo vilarejo, mas a romântica Palma permanece ali, feliz com todo aquele arroz espalhado pelo adro da igreja. Muito pobre, decide com entusiasmo que aquele é o seu presente de casamento para o irmão e a cunhada. No cartão, escreve:

“Este arroz – plantado na terra, caído do céu como o maná do deserto e colhido da pedra – é símbolo de fertilidade e eterno amor. Esta é a minha benção. Palma”

Infelizmente, o arroz, dado com tanto amor, resulta na primeira briga do casal. A partir daí, por quatro gerações, todas as disputas, os conflitos, os dramas e as alegrias da família giram em torno do arroz.

 

As raízes

O Arroz de Palma fala de nossas raízes lusitanas. Não do colonizador, mas do imigrante. Da gente simples, honesta e trabalhadora que veio em busca de dias melhores em terras brasileiras. Sempre confundimos a figura do colonizador com a do imigrante. Talvez, por isto, haja tantas histórias, filmes e seriados sobre italianos, alemães, japoneses, árabes e outros povos que imigraram e nada ou quase nada sobre portugueses. Esta história fala da saga de uma humilde família portuguesa que chegou ao Brasil cheia de sonhos e projetos e que, transplantada neste solo, com muita luta e espírito de superação, aprofundou raízes, cresceu e deu frutos.

Ainda no que diz respeito ao tema da imigração, O Arroz de Palma mostra essa necessidade de voltar às raízes. Hoje, quando tudo é questionado e se torna relativo, precisamos de pontos de referência, modelos que nos transmitam um mínimo de certeza. Ir às raízes, mais que olhar para trás, é olhar para o fundo, para o que não está na superfície. É olhar simbolicamente para o que nos alimenta. É, enfim, tentar entender o que se passa conosco com base também na experiência ancestral, tão rica e tão vasta.

Carta de amor, ano de 1898

Interesse pelos ancestrais

Fico alegremente surpreso com o fato de que, independendo de idade ou classe social, as pessoas se interessam cada vez mais pela ancestralidade. Querem saber nomes de antepassados, a ascendência e a origem do sobrenome. Na internet, já há sites que criam e desenvolvem gigantescas árvores genealógicas. E entendo isso como uma busca afetiva – o que se quer é a informação caseira sobre o parentesco e não a descoberta de eventuais origens nobres.

Avós paternos

 
Seguem dois trechos do romance:

cartas e canetas

Isabel e eu vivemos o tempo das cartas escritas à mão e com caneta tinteiro. Tempo em que, destinatárias, as virgens solteiras eram Senhoritas! É, Antonio. É para rir mesmo. E isto foi ontem! Ontem já sem h! Comprávamos blocos de papel aéreo, íamos aos Correios, lambíamos os selos e as bordas dos envelopes. Ansiávamos pela resposta que, se viesse a jato, levaria pelo menos duas semanas. Todo dezembro, por causa dos cartões de Natal, éramos obrigados a enfrentar filas quilométricas para enviar os votos de Boas Festas. A chegada das canetas esferográficas causou furor. “De jeito nenhum eu uso!”, “Você é atrasado!”, “A letra sai péssima!”, “Sai nada! E não borram!”, “Borram, sim. Não prestam, nunca terão a categoria de uma tinteiro!”, “É questão de tempo, vão ganhar o mercado!”, “Pode tirar o cavalinho da chuva. Envelope sobrescrito com esferográfica, imagina!”.

As cartas que Nuno me enviava da Europa em 68 já eram escritas com esferográfica. Eu resisti o quanto pude, e fui me mantendo fiel à minha Parker 51, mas Isabel logo aderiu à nova moda – muito mais prática, sem aquela aporrinhação de ter de encher a caneta a toda hora e, melhor de tudo, o fim do mata-borrão! Nestes pontos, eu concordava com ela. Sem dúvida alguma, a carga de uma esferográfica durava. Mas que a letra saía feia pra burro, isso saía. Hoje, Bernardo rola de rir com a boba polêmica. Diz que equivaleria, talvez, a se discutir o tipo de fonte a ser usado nos e-mails!

chegada à capital federal

Pensão familiar. Quartos para Cavalheiros. A recepção não é das melhores, mas a acolhida é. Contradição nenhuma. A recepcionista e eu estamos felizes. Será talvez a sorte estarmos os dois assim neste ânimo. Será talvez o dia.
“É aqui que eu assino?”
“Aí mesmo.”
A assinatura me dá direito à chave e às boas vindas. As malas, eu mesmo as levo. Na placa do chaveiro, o número onze. Pé direito alto, escada de madeira, sonho de Jacó, segundo andar, terceira porta à esquerda. Nada me incomoda. Nem a cama, nem o colchão, nem os lençóis. Vejo poesia nesta pobreza específica, me aconchego neste desconforto franciscano. Sou capaz. O único banheiro fica lá fora no corredor, terei de dividi-lo com outros hóspedes. Que mal há nisto se a minha janela dá para os Arcos da Lapa?!
“Deixa as malas aí, Antonio! O cansaço da viagem, pra depois! Uma água no rosto é o quanto basta! Rua, homem! Anda! Vai ver coisas! Rua!”
Não penso duas vezes, me obedeço. Abro a porta com determinação e me ponho daqui pra fora. Vinte e um anos. Hora de saber se terá servido tanta leitura. Sustos exclamativos! Estarei mesmo em 1939?! Terei chegado finalmente ao século XX?! Jornais e revistas! Quantos! Bondes elétricos, fagulhas, gente amontoada nos estribos, trilhos! Automóveis pretos reluzentes, buzinas fanhas, burburinho de ruas e cafés – como me é possível não conhecer uma só alma?! Século XX, com certeza! Praças grandiosas, avenidas que se perdem no horizonte, monumentos! Reconheço todos eles e me emociono! O Palácio Monroe, a Biblioteca Nacional, o Museu de Bellas Artes, o Theatro Municipal! Estarei louco ou o Thezouro da Juventude ganhou vida?! Por que as ilustrações do Lello Universal me aparecem assim animadas e sem as legendas miudinhas?! Por que respiro tão fundo?! Por que esta tonteira alegre e colorida?! Por que esse povo na rua ao mesmo tempo?! Estará todo ele à procura de esmeraldas?! Esbarro distraído no ombro que vem em sentido contrário.
“Perdão!”
O terno branco de chapéu Panamá mal se volta para mim, aceita apressado o pedido de desculpas e lá vai – febril bandeirante à procura de riquezas.

 


LEIA TAMBÉM o texto “Família é prato difícil de preparar”, o mais conhecido trecho de “O arroz de Palma”